FIFA: Chris Eaton: “Vamos contra-atacar”

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1543939_FULL-LND05.01.2012 – Um ano depois de assumir o cargo de diretor de segurança da FIFA, Chris Eaton conversou com o FIFA.com sobre o problema da manipulação de resultados e sobre os progressos e objetivos da luta que a entidade vem travando.

FIFA.com: Qual é a missão do departamento de segurança da FIFA?
Chris Eaton:
Depois da Copa do Mundo da FIFA 2010, criamos um programa de apoio aos investigadores para combater a manipulação de resultados e a infiltração de criminosos na FIFA. É claro que isso se estende também às federações afiliadas. Nos últimos 12 meses, desenvolvemos um sistema para apoiar a polícia e outros órgãos judiciários ou investigativos a recolher provas para abrir processos por manipulação de resultados. Essas fraudes podem ter um impacto — e de fato têm — sobre as eliminatórias para as competições da FIFA e também poderiam interferir em torneios mundiais. Desse modo, minam a integridade global de nossos campeonatos. No entanto, a infiltração de criminosos perigosos em nossas federações e no futebol é, em geral, o tema mais premente. O crime organizado busca a manipulação de resultados porque o futebol gera um interesse enorme entre os jogos de apostas. Mais de 90% do mercado de apostas relacionadas ao esporte no sudeste da Ásia gira em torno de partidas de futebol, principalmente as internacionais. Muita gente vê a FIFA como uma entidade rica, mas ela não tem nem de perto tanto dinheiro quanto as organizações e os agenciadores de apostas em todo o mundo. Essas instituições vivem do futebol, mas a FIFA não recebe nenhum benefício delas, nem tem acesso nem influência sobre as mesmas. A FIFA não é contrária às apostas ou aos jogos de azar, mas, como vítima indireta, incentiva os governos a criar conjuntamente algum tipo de mecanismo de controle sobre as empresas de apostas não regulamentadas, principalmente no sul da Ásia, onde as apostas sem regulamentação ultrapassam as regularizadas. Uma investigação conduzida na Itália há mais de um ano sobre a manipulação de resultados no país descobriu que o provável lucro ilegal de duas grandes organizações criminosas, a Máfia e a Camorra, é de mais de dois bilhões de euros. E, atenção, isto é dinheiro “eletrônico”, ou seja, não existem transferências internacionais e nenhum risco ligado à importação de produtos, aos problemas com os mesmos ou à necessidade de corromper uma enorme quantidade de pessoas. Por isso, até agora eles vêm tendo altos lucros e pouco risco.

É difícil descobrir tudo isso?
O maior inimigo é a ingenuidade, quando as pessoas pensam: “Este é o esporte mais belo do mundo, quem tentaria se aproveitar dele?” Bem, a resposta é que há muitas maneiras de se aproveitar dele. Uma é a manipulação de resultados. Nossa tarefa mais importante é prevenir isso. Assim, estamos criando um ambiente hostil para os manipuladores, para que eles se deem conta de que nós os desmascararemos, divulgaremos seus nomes e faremos que sejam investigados em alguma parte do mundo. Um dos maiores riscos está nas eliminatórias para a Copa do Mundo, principalmente quando as seleções competidoras não acreditam ter grandes chances de classificação.

Como vocês obtêm essas informações ou se dão conta disso?
Agora, estamos buscando fontes tanto dentro das organizações criminosas quanto no mundo do futebol, para que nos aconselhem. O Departamento de Segurança da FIFA é pequeno e, por conta disso, contamos com parcerias com os organismos de manutenção da ordem pública. Também precisamos envolver as federações e as confederações nesta rede. Por exemplo, temos uma força-tarefa contra a manipulação de resultados montada em conjunto com a Confederação Asiática de Futebol, que está funcionando em Kuala Lumpur (na Malásia) desde o dia 1º de dezembro. São dois funcionários da confederação e um nosso — um investigador especializado. Juntos, nos concentraremos na manipulação de resultados e nos trabalhos anticorrupção no sudeste da Ásia. Há outro investigador na Colômbia trabalhando no continente americano. Temos um investigador de origem árabe operando na Jordânia, trabalhando no Oriente Médio e na África, e temos um coordenador de investigações globais operando na Inglaterra e monitorando a África e a Europa. Isso se trata de crime organizado internacional — ou transcontinental, na verdade. Por exemplo, já rastreamos as pegadas de criminosos cingapurianos pela Europa, a África e a América Central. Portanto, é muito difícil para as polícias nacionais investigar um fenômeno como este. Mas acho que o progresso que vimos em 2011 é um bom sinal de que venceremos os manipuladores de resultados. Não duvido disto.

É preciso uma espécie de Agência Mundial Antidoping (WADA, na sigla em inglês) para a manipulação de resultados?
Não acho que precisemos de uma WADA. Os diferentes esportes necessitam ter capacidade investigativa independente. A WADA foi criada para lidar com gente que trapaceia para ganhar. Já nós tratamos de criminosos que corrompem para perder. Com certeza é preciso haver um código sobre a manipulação de resultados. O melhor lugar para controlar a ética de qualquer modalidade é onde ela é praticada — nos clubes, nas federações e no coração de todos os participantes.

Você acredita que a manipulação de resultados pode ser vencida?
Com certeza. Estou envolvido em investigações criminais há mais de 40 anos e trabalho há mais de 12 com a Interpol. Até hoje não encontrei um criminoso realmente inteligente. Há muita gente mais inteligente na administração da FIFA, por exemplo. Existe a necessidade, porém, de olharmos de frente a questão da estabilidade financeira e da vulnerabilidade de jogadores e árbitros. Temos exemplos de jogadores que foram intimidados e possíveis exemplos de atletas assassinados por decidirem não cooperar com os criminosos. Em 2012, jogadores, árbitros e até mesmo dirigentes contarão com um lugar ao qual se dirigir, mesmo de forma anônima, para contarem seu caso. Isso começará com o programa de anistia e recompensas e com uma linha direta. Haverá uma página na internet, um número telefônico e um endereço de correio eletrônico exclusivo em todas as línguas. Faremos tudo o que convier à pessoa que queira contar algo. Teremos em conta aqueles que vierem até nós em busca de recompensa ou anistia. Alguns jogadores foram injustamente comprometidos por seus companheiros, suas famílias ou mesmo seus clubes e não vejo razão para que não tenham a possibilidade de passar por um treinamento e uma reabilitação e voltar ao futebol. Queremos gente no esporte que nos conte a verdade antes que a descubramos. O lema é uma espécie de “fale antes que você seja pego”.

Você pode dar dados sobre a extensão do problema da manipulação de resultados?
É muito difícil. O que de fato é possível é medir o tamanho do lucro. A agência regulatória italiana, por exemplo, pode acompanhar todas as apostas feitas em esportes. Cerca de 4,2 bilhões de euros são apostados anualmente no país e 92% vai para o futebol. As empresas de jogos de azar registradas na Itália acreditam que realizam 30% das operações totais. Assim, 70% passa por agentes não regulamentados nem registrados, o que, no fim, eleva a cifra das apostas no futebol a cerca de 12 bilhões de euros por ano na Itália. E isso é somente em um único país europeu. Estimamos que entre 300 e 500 bilhões de euros anuais sejam movimentados por apostas em esportes em todo o planeta, o que naturalmente inclui corridas de cavalos e críquete, entre outros.

O programa educativo da Interpol está em funcionamento?
Ele começará oficialmente neste ano e será posto em prática na primeira competição internacional da FIFA de 2012, a Copa do Mundo Feminina Sub-20 da FIFA. A Interpol conversará com jogadoras e árbitros. É preciso que o mundo do futebol acorde e resista. É hora de o futebol lutar contra os manipuladores de resultados.

Qual foi o aspecto mais animador e o mais frustrante de seu trabalho até o momento?
Estou muito animado com a crescente conscientização do mundo do futebol em relação à manipulação de resultados. Sinto que os jogadores querem que isso saia ao conhecimento geral. Alguns deles, com os quais eu conversei, foram vítimas disso. Foram jogar uma partida por seus países e ouviram de seus companheiros que tinham de entregar o jogo. Por não terem aceitado, nunca mais defenderam suas seleções novamente. Há exemplos terríveis das consequências que alguns jogadores tiveram de pagar por sua honestidade. Dois deles se suicidaram na Coreia do Sul pela vergonha de se verem envolvidos em alegações de manipulações de resultados. Quando jogadores, técnicos e dirigentes são corrompidos em um esporte construído com base no espírito de equipe e no jogo limpo, eles se tornam as vítimas. Quando ideais nobres são comprometidos, a vergonha vem logo a seguir. Temos de dar apoio e proteção a essas pessoas.

E como isso é possível?
Não posso passar minha vida inteira falando separadamente com cada uma das instituições policiais. Precisamos aumentar nossa determinação em buscar soluções em um âmbito global, como a ONU, a Interpol ou outras organizações internacionais cujas áreas de atuação possam incidir sobre nosso problema. Antes de tudo, temos de medir o tamanho dele. Isso, em parte, é o que a Interpol está fazendo agora. Nunca tivemos tantas investigações sendo conduzidas ao mesmo tempo como hoje, com centenas de jogadores na prisão e dirigentes sendo investigados. Se isso não for um chamado para que façamos algo, então nunca faremos nada. Temos perto de 50 investigações nacionais abertas — um quarto das federações afiliadas à FIFA. Isto é assustador. Vamos fazer algo a respeito disto. Vamos contra-atacar.

Fonte: FIFA 

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